Estamos de volta!!

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O Inverno Chegou...
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2 de jan de 2015

As Mudinhas

Eu era pequena ainda quando um novo bebê chegou à nossa casa. Certamente devia alegrar-me com o irmãozinho, porém os cuidados e atenções com que nossos pais o cercavam encheu-me de ciúmes e muitas vezes chorava ao pensar que tinha perdido o carinho antigo.

Vovô cultivava uma horta nos fundos de nossa casa. Em certo dia em que eu estava mais envenenado de ciúmes do que nunca, ele me chamou. Fui ver o que queria. Estava de cócoras junto a um canteiro onde semeara alface. As mudinhas, de um verde muito tenro, brilhavam à luz daquela manhã límpida e tranquila. Vovô, mergulhado no trabalho de separar, delicadamente, as mudinhas, não parecia ter percebido a minha emoção. Ele me disse:

- Preste atenção! Estou separando as mudinhas e, depois, irei plantá-las no lugar certo. Sabe, filha, carinho é como alface: precisa ser dividido para crescer melhor. Quando eu era da sua idade gostava muito de minha mãe. Fiquei rapaz e, um dia, conheci uma jovem, casei-me com ela e tivemos um filhinho. Depois veio outro e outro. Mas, cada um que chegava não tirava nem um pouquinho do outro. O amor é uma coisa muito curiosa, quanto mais é dividido mais cresce e mais forte se torna. Seu pai e sua mãe estão ocupadíssimo com o bebê porque ele é pequenino, frágil e desamparado. Mas pode crer que o amor que tinham por você ainda se tornou maior...
À medida que eu via os pés de alface crescendo, belos e exuberantes, uma nova alegria nasceu em meu coraçãozinho ciumento. O carinho de papai e mamãe, dividido, crescia também, a cada dia, como aquela planta que tivera de ser dividida para que uma muda não sufocasse a outra.

Muitas vezes, depois disso, quando me perturbava o desejo de posse exclusiva, o canteiro de vovô parecia se retratar em minha mente, dando-me uma nova perspectiva de paz e serenidade.

Quanto mais dividido, mais forte e mais profundo se torna o amor. Nunca pude me esquecer disso...

*Wallace Leal V. Rodrigues*

16 de mai de 2014

A Panela




A velha empregada de minha família era uma preta.

Chico, o neto dela – como é costume acontecer quando não temos irmãos -, era o meu companheiro constante de brincadeiras e folguedos.

Em tudo quanto fazíamos, a parte de Chico era sempre a mais pesada, secundária e passiva.

Ele tinha sempre que dar e, nunca, que receber.



Um dia corri para casa, à saída da escola porque Chico e eu tínhamos projetado construir uma vala que fosse do poço à lavanderia.

Sem darmos por isso, cada um de nós assumiu logo o seu papel, – como de costume.

Chico era o “condenado” a trabalhos forçados, suando e repetindo esforços. E eu o implacável guarda, com uma vara na mão!


A maneira como eu estava maltratando aquele menino negro, era quase digna de um adulto imbuído de preconceitos de cor.

Foi quando a nossa preta velha chamou-nos :

- Crianças, venham pôr a minha panela no fogão!

Corremos para a cozinha. A panela estava no chão e nós a agarramos com ambas as mãos. Mas com um grito a largamos, perplexos de que ela nos tivesse mandado pegar em uma coisa que, – era evidente que sabia, – estava extremamente quente.

Em seguida, em graves e brandas palavras, tão nítidas e simples que até hoje as posso escutar, partindo do fundo do tempo, disse-nos assim:


- Ora! Vocês dois se queimaram. Que coisa mais engraçada! A cor da pele de vocês é tão diferente, mas a dor que estão sentindo é igual para ambos, não é verdade?

Concordamos que sim.

E nunca mais pude me esquecer desse episódio que sem dúvida alguma, fez de mim uma pessoa diferente.


*Wallace Leal V. Rodrigues*

1 de set de 2013

A Balança


Quando menino eu vivia brigando com meus companheiros de brinquedos. E voltava para casa lamuriando e queixando-me deles. Isto ocorria, as mais das vezes, com Beto, o meu melhor amigo.

Um dia, quando corri para casa e procurei mamãe para queixar-me do Beto ela me ouviu e disse 
o seguinte: 

- Vai buscar a sua balança e os blocos. 

- Mas, o que tem isso a ver com o Beto? 

- Você verá... Vamos fazer uma brincadeira. 

Obedeci e trouxe a balança e os blocos. Então ela disse: 

- Primeiro vamos colocar neste prato da balança um bloco para representar cada defeito do Beto. 

Conte-me quais são. 

Fui relacionando-os e certo número de blocos foi empilhado daquele lado.

- Você não tem nada mais a dizer? Eu não tinha e ela propôs: Então você vai, agora, enumerar as 
qualidades dele. Cada uma delas será um bloco no outro prato da balança. 

Eu hesitei, porém ela me animou dizendo: 

- Ele não deixa você andar em sua bicicleta? Não reparte o seu doce com você? 

Concordei e passei a mencionar o que havia de bom no caráter de meu amiguinho. Ela foi colocando os blocos do outro lado. De repente eu percebi que a balança oscilava. Mas vieram outros e outros blocos em favor do Beto. 

Dei uma risada e mamãe observou: 

- Você gosta do Beto e ficou alegre por verificar que as suas boas qualidades ultrapassam os seus 
defeitos. Isso sempre acontece, conforme você mesmo vai verificar ao longo de sua vida. 

E de fato. Através dos anos aquele pequeno incidente de pesagem tem exercido importante influência sobre meus julgamentos. Antes de criticar uma pessoa, lembro-me daquela balança e comparo seus pontos bons com os maus. E, felizmente, quase sempre há uma vantagem compensadora, o que fortalece em muito a minha confiança no gênero humano.

 Wallace Leal V. Rodrigues 

beijinhos de luz

Não dê armas às crianças!!

Não dê armas às crianças!!